| ABANDONADOS
- O SILÊNCIO DOS INOCENTES
A
dor dos abandonados se espalha de norte a sul do Brasil. Em praças,
hospitais, parques, terrenos baldios e áreas abertas de todo
o país, centenas de filhotes e adultos são despejados
todos os anos, nas piores condições possíveis.
Sofrendo
com a violência e a crueldade humanas, estes animais não
recebem nenhum olhar generoso por parte da maioria da população.
São perseguidos e capturados, condenados a viver uma vida
de párias sob a acusação de transmitirem doenças,
emporcalharem os parques e praças e destruírem a fauna
nativa.
Discute-se
muito se a violência contra os animais têm crescido
nos últimos anos na mesma proporção em que
cresce a violência contra a sociedade em geral. Sem dados
estatísticos precisos, é difícil definir essa
questão.
O que se sabe com certeza é que são cada vez mais
freqüentes os casos de crueldade e maus tratos que vêm
ao conhecimento público. A cada dia aparecem dezenas de novas
denúncias e descobrem-se novas formas de barbárie.
A imaginação humana parece não ter fim, não
parece haver limites para o sadismo de nossa espécie... Não
há nenhuma ética nessas mentes doentias.
São muitas as histórias, são muitos os relatos...
Em 2001, no Clube Militar, RJ, os gatos que moravam em um buraco
foram perseguidos com um extintor de incêndio e tentou-se
capturá-los utilizando pedaços de plástico,
vedando em seguida a saída. Dois anos antes, a direção
do Clube já havia tentado eliminar os gatos da mesma forma.
Em janeiro de 2003, um funcionário do Supermercado Nacional,
em Rio Grande, RS, matou com requintes de crueldade um gato que
havia entrado no estabelecimento. O crime, presenciado por um motorista
de táxi, foi ordenado pelo gerente. O gato foi arrastado
por uma corda presa ao pescoço, e atirado contra o meio fio
da calçada em frente, como se fosse um pedaço de pano.
Em maio de 2003, em Mirassol, SP, a polícia prende um aposentado
apanhado em flagrante enquanto tirava a pele de um gato siamês
no quintal de sua casa. Dentro de casa, haviam mais dois gatos.
O acusado confessou que tinha hábito de roubar os animais
das vizinhanças e comê-los.
Na Praça Antero de Quental, RJ, existiam cerca de 14 gatos,
a maioria extremamente mansos; todos castrados e vacinados. No dia
12 de junho de 2003, aproximadamente ao meio dia, um senhor branco,
que aparentava ter cerca de 60-70 anos soltou um cachorro de grande
porte, incitando-o contra os gatos, apesar dos apelos de transeuntes.
O cão trucidou a gatinha mais velha, que não conseguiu
fugir, e rosnava agressivamente em cima do corpo gato até
para o proprio dono. O senhor conseguiu sair com o cachorro quando
ameaçaram de matar o animal. No dia seguinte outro homem,
que gostou da cena, ameaçou que, de madrugada, iria acabar
com o restante dos felinos. Os dois individuos não foram
identificados para que se pudesse tomar alguma outra providência.
Mas a história não termina aqui. Cães foram
e vem sendo usados incessantemente para destruir colônias
de gatos em vários locais da cidade, como aconteceu no Extra
Boulevard.
Em outubro de 2003, um policial mata uma gata no 23º Batalhão
da PM, no Leblon, RJ. O policia segurou a gata pelo rabo acima da
cabeça e a atirou na parede repetidas vezes, torturando-a
até a morte. A violência foi tamanha que, ao se fazer
a autópsia, constatou-se que a coluna da gata estava quebrada.
No início de maio de 2004, a polícia investigou envenenamento
de animais em ruas da Tijuca, RJ. De acordo com o que foi divulgado,
um serial killer atacou nas ruas do bairro, matando pelo menos 11
animais. Para envenenar os animais, o criminosos jogava dentro de
todas as casas carne com chumbinho além de espalhar o petisco
pelas calçadas para atrair os animais que passeiam pela vizinhança.
Na Flórida, EUA, um menino de 8 anos tortura um gato de 4
meses de idade, provocando fraturas no crânio e na boca do
animal. O crime é considerado pelas autoridades um "delito
menor".
No Colorado, EUA, pelo menos 42 gatos foram mutilados e mortos.
Os órgãos foram retirados cirurgicamente e colocados
enfileirados ao lado dos corpos. A polícia procurou o serial
killer, em vão.
Uma senhora inglesa teve sua gata raptada e recebeu pedaços
de sua orelha pelo correio. O animal voltou para a casa depois disso.
Em outras ocasiões, a gata já havia sido queimada
e envenenada.
Uma
vez, voltando para casa, vi um automóvel acelerar apenas
para passar por cima de um gato preto que se atreveu a atravessar
a rua justamente naquele momento. Os segundos de agonia a que assisti
ficarão marcados como um pesadelo que se repete para sempre.
Um filhote foi jogado da janela de um ônibus em meio ao trânsito;
felizmente, sua vida não durou mais que poucos segundos.
Um persa, adulto, é jogado pela porta de um carro em uma
rua movimentada do Rio de Janeiro.
Um gato aparece em sua casa pela manhã com uma flecha, disparada
por um arqueiro anônimo.
Outro amanhece com a língua pela metade, cortada por algum
lunático. Uma gatinha é encontrada queimada e com
o rabo quebrado.
Um pequeno gato é girado pela cauda até arrancá-la.
Vários gatos de rua têm os olhos furados por adolescentes
que fazem dessa prática um passatempo das tardes de sábado.
Animais são espancados, chacinados, torturados e envenenados
diariamente em todo o país. A lista não parece ter
um fim.
O abandono resulta em mais tragédias. A violência contra
os animais de rua se amplia, apoiada no desamparo e na inocência
dos mesmos, incapazes de reconhecer o perigo vindo de seres que
aprenderam a não temer, mas a amar.
A violência dentro de casa, praticada pelo próprio
dono, entretanto, só faz crescer. A corda arrebenta sempre
do lado mais fraco. Os animais e as crianças são os
primeiros a sofrer as conseqüências das mazelas humanas...
E não somente em violência física se resumem
os maus tratos. Não podemos esquecer de incluir aí
pessoas que mantém seus animais sem condições
mínimas de vida, sem carinho, sem amor, sem atenção.
Pessoas que batem, aterrorizam, não alimentam adequadamente,
expõe aos riscos de uma vida nas ruas, mantém fêmeas
procriando sem parar... Tudo isso também é violência.
Tudo isso se inclui no rol das crueldades.
O que podemos fazer ? Como podemos atuar de forma a reprimir e punir
quem pratica tais atos ?
Antes de mais nada, é preciso denunciar. Procurar as entidades
de proteção animal. E saibam, toda denúncia
é anônima. A pessoa denunciada nunca fica sabendo a
origem, mantendo assim a integridade do denunciante, uma vez que
este é o elo principal de uma nova ética, e de um
sentido de humanização. Por isso, nunca recuem diante
da covardia de pessoas cruéis, desprovidas de sentimentos
como compaixão, caridade e dignidade.
Você estará ajudando indiretamente até os familiares
do agressor. Quem é cruel com animais é cruel para
a família.
Lembre-se sempre de que pessoas que são violentas com os
animais nunca param por aí.
Garantias legais aos animais não faltam, mas as leis dependem
da nossa atuação para ser cumpridas. Mesmo em um país
como o Brasil, onde a impunidade impera, vale à pena se informar
e lutar contra aqueles que maltratam os animais de todas as formas
possíveis.
Participar de grupos de discussão, de listas e de entidades
também ajuda. Juntos nos sentimos mais fortes, e estamos
sempre em contato com novas formas de ação, refinando
cada vez mais o nosso modo de proceder. E sempre haverá alguém
com quem contar, alguém para ouvir, para trocar idéias...
Quem sabe juntar esforços para fazer campanhas, quem sabe
unir as forças para montar uma equipe de ação
mais efetiva ?
Mantenha-se sempre atento ao que se passa perto de você. A
violência contra os animais e a indiferença podem estar
mais perto do que você imagina.
COMO COMBATER O ABANDONO ?
Durante muito tempo, pensou-se unicamente no lado mais dramático
do abandono - a falta de um lar e a exposição a todo
tipo de crueldades. A idéia era recolher os animais das ruas
e colocá-los em abrigos, ou em casas de pessoas que pudessem
adotá-los. Uma iniciativa louvável e necessária,
mas que logo mostrou ser ineficaz para resolver o problema. Por
mais que se tente salvar das ruas cães e gatos, a realidade
é que não há e nem haverá lares para
todos.
O que se pode fazer então ? Largar estes animais à
própria sorte ? É evidente que a resposta é
não. Adotar é preciso. Tirar das ruas é preciso.
Mas, acima disso, é urgente que se façam campanhas
nacionais educando a população. O problema do abandono
só será solucionado totalmente a longo prazo. E isso
só acontecerá se fizermos com que as novas gerações
se sensibilizem e se tornem adultos responsáveis e conscientes
de seus deveres.
Posse
Responsável
O conceito de posse responsável tem que ser disseminado,
seja através de campanhas educativas, seja através
da ação isolada de protetores e simpatizantes da causa
animal. A informação é uma arma poderosa a
serviço da conscientização das massas. Muitas
pessoas abandonam por puro desconhecimento sobre o sofrimento ao
qual o animal estará exposto. Muitos não abandonariam
o animal se tivessem mais informações sobre ele, suas
doenças e modo de ser. Nem todos os que abandonam são
pessoas cruéis. Vide nossos avós, que deixavam as
ninhadas na porta alheia, ou em um lugar com muito verde e bichos,
achando que "na natureza" seriam muito felizes.
Dentro do conceito de posse responsável, é útil
que se leia cada vez mais sobre o assunto, para ter maior embasamento
ao apresentar argumentos para conscientizar a população
de que o animal é um ser como nós, que sente, chora,
sofre, se angustia e tem medo.
Castração
em massa
Campanhas de castração vem sendo desenvolvidas em
algumas cidades do país, como em Ribeirão Preto. Mas
sem o apoio governamental, torna-se muito difícil atingir
toda a população, em especial a de baixa renda, que
não tem sequer o hábito de levar seus animais ao veterinário
regularmente.
A castração ainda encontra um obstáculo a mais
- o preconceito. Muitas pessoas acham que estarão mutilando
seu animal, que ele poderá adoecer, que vai engorda e não
servir mais para guarda, entre outras crendices. Os animais, então,
continuam a se reproduzir como a natureza manda, ininterruptamente.
E mais e mais ninhadas são geradas e abandonadas, ou mortas
ao nascer.
É preciso que as prefeituras se conscientizem de que não
adianta acionar o CCZ para recolher animais abandonados, pois, sem
castração, sempre haverão mais e mais animais
para recolher. É uma bola de neve, um círculo vicioso.
Sem uma política de castração em massa, o problema
jamais será sanado.
Pesando no
bolso
Outra possibilidade a ser considerada é a aplicação
de multas severas em quem for pego abandonando animais nos logradouros
públicos. As pessoas só sentem que estão sendo
punidas quando lhes dói no bolso.
Mas de nada adiantará ameaçar punir e não fiscalizar.
É necessário que se fiscalizem os locais com índices
mais altos de abandonos, para evitar que estas criaturas continuem
a agir impunemente, escondidos pela madrugada.
Controle
da venda
Para cada animal que é comprado, outro que poderia ser adotado
é condenado em um dos muitos CCZs espalhados pelo país.
Sabe-se que muitos dos animais que são recolhidos anualmente
são de raça, o que comprova que o fato de serem comprados
não é um fator que livre estes animais do abandono.
O cruzamento e a venda indiscriminada de animais podem e devem ser
controlados. É possível ver nas ruas ambulantes exibindo
filhotes de menos de 30 dias nas mãos, sem as mínimas
condições de higiene e saúde. Na esmagadora
maioria, estes animais são vendidos debaixo de sol, sem água
nem comida disponível, e ficam espostos ao stress de serem
vistos e tocados por dezenas de pessoas diferentes.
Centro
de Controle de Zoonoses ( CCZ )
Na maioria das cidades do país, o CCZ é acionado para
recolher animais abandonados. Esses animais ficam aguardando durantes
uns poucos dias, durantes os quais sofrem maus tratos que variam
de sujeira e pouca comida a agressões físicas. Após
este curto período de tempo, se não reclamados nem
adotados por ninguém, são sacrificados, na maior parte
dos casos com métodos cruéis.
O CCZ não pode ser encarado como solução para
o abandono. Recolher animais não resolve, e os países
mais desenvolvidos já perceberam isso há muito tempo.
Neles, o que se faz é manter as colônias de gatos castradas
e em boas condições de saúde, para que se elimine
o risco de transmissão de zoonoses.
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VIOLÊNCIA
NAS RUAS

Todos
os dias, os casos de abusos contra animais acontecem em abundâcia
pelo país afora, mesmo ausentes das manchetes dos jornais.
O mundo continua cor-de-rosa para a maioria das pessoas, mas para
nós, protetores e amantes de animais, que temos acesso
à informação da mídia digital, a realidade
é bem outra.
Descaso
Infelizmente, a grande maioria das pessoas se acostumou a encarar
os animais como seres menores ou menos importantes que os humanos,
e por isso mesmo, nem olham duas vezes quando os encontram doentes,
subnutridos ou atropelados. Apenas passam e deixam quieto, como
se fosse um pacote vazio ou um pedaço de jornal velho.
O descaso acaba se tornando aliado da violência contra os
animais, pois as pessoas tendem a pensar - poderia ter sido pior,
ao menos não foi uma criança. Um raciocínio
no mínimo equivocado, como pode comprovar a pesquisa que
relaciona os casos de violêcia contra humanos aos de violência
contra os animais. Ver e não socorrer é crime. Ver
e fingir que não vê é crime. Ver e cruzar
os braços é crime. Não está escrito
em nenhum texto de lei, não está impresso na Constituição.
Mas estará para sempre incorporado à sua consciência.
Maus tratos
A cena poderia ser rara, mas é corriqueira no dia-a-dia
de quem está acostumado a lidar com animais vítimas
de abandono nas grandes cidades. Uma gata com marcas de pancadas,
um olho saltado para fora, escoriações pelo corpo
e o crânio afundado chega às mãos da veterinária,
trazida por uma protetora que a encontrou em um dos parques da
cidade. Frutos da violência humana, que se volta cada vez
mais contra os animais, vítimas indefesas, estes casos
se tornaram rotina nas listas de discussão da internet,
nas instituições que acolhem animais de rua, nas
clínicas veterinárias que atendem aos protetores,
na vivência diária de um grupo ainda pequeno de pessoas,
mas que se torna mais e mais forte.
Graças ao trabalho incansável de alguns protetores
e simpatizantes, que se dispuseram a levar ao conhecimento da
população os desmandos e as atrocidades que se cometem
contra os animais, estas imagens podem ser vistas por qualquer
pessoa, em todo o mundo, nos fotologs, sites e blogs que denunciam
a violência contra os animais.
Tráfego
Centenas de animais perdem suas vidas todos os anos debaixo do
ronco dos motores, das rodas dos carros, das turbinas dos aviões,
das hélices das lanchas e barcos.
Em muitos casos, pode-se dizer que o humano que atropela não
tem culpa, mas em alguns casos, a verdade é outra. Minha
irmã conheceu um rapaz certa vez cujo passatempo era andar
de carro à noite atropelando os animais que encontrasse.
Sádico, louco, mas não solitário em seu passatempo
macabro. Eu mesma presenciei um gato preto morrer na minha frente
debaixo das rodas de um carro cujo motorista, longe de frear ao
vê-lo, ao contrário, acelerou. De outra vez, uma
amiga estava em um ônibus quando viu um gatinho miúdo
ser atirado por uma das janelas de outro ônibus em frente,
no meio dos carros. Desnecessário dizer que destino teve
aquele pobre filhote. Desnecessário discorrer sobre o que
eu faria com o infeliz que foi capaz disto. Pare seu carro para
os animais, diminua a velocidade ao vê-los. Não contribua
para que mais vidas sejam ceifadas antes da hora. Se
acontecer uma fatalidade, não deixe de socorrê-lo
e levá-lo para a clínica mais próxima. Prestar
primeiros socorros é
obrigação de quem atropela. Lembre-se disso.
Preconceito
Em pleno século XXI, as pessoas continuam se deixando contaminar
pelo preconceito, em todos os níveis. O gato é um
animal malvisto por muitos, cheio de idéias erradas a seu
respeito. Em outras eras, julgava-se até mesmo que era
ajudante do diabo, ou capataz das bruxas, capaz de despejar malefícios
e aprisionar as almas das pessoas.
Pior ainda se o gato tiver o azar de ter nascido preto. Já
ouvi contar de gatos que foram encontrados com a boca costurada,
rabos cortados, olhos vazados, atravessados por espinhos e pedaços
de pau, usados em rituais de magia negra. E ainda têm a
capacidade de dizer que o gato é que é comparsa
do demônio !!!
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